Fundação Comendador José Nunes Martins

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Nos anos vinte, emigrou para o Brasil um homem humilde, filho de Oliveira do Conde, chamado José Nunes Martins que, à mercê de muito trabalho, conseguiu singrar na vida, amealhando, para a época, um pecúlio considerável. Numa das visitas que fez à sua terra natal, resolveu perpetuar a sua memória num empreendimento que estivesse ao serviço dos mais necessitados com a criação de um posto de socorros que, mais tarde, deu lugar a uma Fundação a que se deu seu nome.

A Fundação José Nunes Martins prestou relevantes serviços ao Concelho no campo da saúde. Os trabalhos de construção do edifício foram dirigidos, em primeiro lugar, pelo Sr. António Martins, regressado do Brasil, primo e amigo de José Nunes Martins e, depois, pelo saudoso Dr. Luís de Almeida Melo, o primeiro Presidente da Fundação e, na altura, o homem que, embora não sendo natural do Concelho, a ele se dedicou de corpo e alma.
Foi Conservador do Registo Civil, Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Carregal do Sal, Presidente do Clube de Futebol de Carregal do Sal impulsionador do Círculo de Cultura de Carregal do Sal.

Mais tarde, o Dr. António de Sousa Pinto de Campos assumiu o cargo de Presidente da Fundação e, nesta qualidade e na de Delegado de Saúde prestou relevantes serviços ao Concelho, não descurando o exercício da medicina, pois começou como médico do partido, subordinado à Câmara Municipal, regra então vigente.
Como presidente da Fundação contou com a prestimosa colaboração dos Srs. Mário Lourenço Teles e Manuel Fernandes. Numa fase mais crítica, foi o único médico a assegurar os serviços da Fundação, auxiliado pela enfermeira D. Odete Ferreira Azevedo que assegurava todo o serviço de enfermagem.
Foram tempos difíceis que estes dignos profissionais da saúde viveram para acorrerem a todas as necessidades dos utentes.
As vacinações das crianças eram feitas nas escolas primárias pelo Dr. Pinto de Campos e pela D. Odete, auxiliados pela D. Alzira Azevedo Cláudio na parte administrativa.

Na análise das águas e outros serviços colaborou ativamente o Sr. Fernando Cristo.
Mais tarde o Dr. António de Jesus Correia e a enfermeira D. Clara Alves Lourenço deram preciosa ajuda ao Dr. Pinto de Campos e à enfermeira D. Odete, respetivamente. O Dr. Jesus Correia substituía o Dr. Pinto de Campos, na ausência deste.

Tudo isto se passou antes da colocação de policlínicos e de mais enfermeiros. Na vinda dos policlínicos, que normalizou o serviço de Saúde, teve a Câmara de então papel preponderante, ao disponibilizar habitações mobiladas para os médicos, prestando todas as ajudas solicitadas pelo Dr. Pinto de Campos. Desta conjugação de esforços lucrou o Concelho, na altura um dos mais beneficiados com o número de policlínicos para aqui destacados.

O hospital atingiu, nos primeiros tempos, um período de grande atividade com a realização de intervenções cirúrgicas e trabalhos de parto, a cargo da enfermeira D. Odete.

Teve, ainda, a Fundação ao seu serviço a Ordem Religiosa de Nossa Senhora das Victórias, com irmãs muito qualificadas que, também, desenvolveram um trabalho importante.

A inauguração da Fundação teve lugar no dia 1 de Novembro de 1958. tendo-se deslocado a Oliveira do Conde, para o efeito, o então Ministro da Saúde, Dr. Martins de Carvalho e o pintor Valdemar Mota. Como é óbvio, estiveram presentes as autoridades concelhias e distritais.

O Presidente da Câmara de então era o Sr. Professor Delfim Pina.

O Sr. José Nunes Martins foi agraciado pelo Governo Português com a Comenda da Ordem de Benemerência.

Oliveira do Conde, embora postumamente, prestou-lhe a devida homenagem, colocando o seu busto em frente da Fundação. O busto foi inaugurado em 29 de Setembro de 1987.

Sobre a Inauguração da Fundação, eis o que nos disse, na altura, "O Mensageiro Paroquial" no editorial por Jorge Marques, um dos mais assíduos e ilustres colaboradores do jornal. Transcreve-se, também, o artigo do Sr. Dr. Luís de Almeida Melo com o Titulo "A Obra ... um pouco de história."


JORNAL O MENSSAGEIRO PAROQUIAL - Artigo de Jorge Marques:

“(…) Foi uma honra para a nossa terra, sem dúvida, de há muito dasacostumada da presença, e até do interesse, dos homens da Governança. Em 23 do passado mês de Outubro, novamente Sua Excelência honrou a nossa terra com a sua visita, agora particularmente dirigida à Fundação do Comendador José Nunes Martins. Este Senhor e o Presidente-Delegado da Fundação, Sr. Dr. Luís de Melo, acompanharam o Presidente do Conselho durante a sua visita à Fundação e prestaram-lhe todos os esclarecimentos.
Sua Excelência mostrou o seu melhor interesse pelo que ia vendo (e quis ver tudo) felicitando repetidamente o patrono e instituidor daquela obra de benemerência pela sua feliz realização. Não há dúvida, estamos em e face de uma obra que merece ser acarinhada por todo o concelho de Carregal do Sal, que a todo o concelho interessa, e particularmente pela freguesia de Oliveira do Conde.

Recentemente, na Assembleia Nacional, falou um senhor Deputado sobre a falta de assistência médica nas zonas rurais e referiu a assustadora percentagem de partos sem assistência do médico e nem sequer da parteira. Esta realidade é tanto ou mais flagrante no nosso concelho, quanto a definiram as palavras do ilustre Deputado.

A obra que pôde chamar sobre si a atenção do Presidente do Conselho Doutor Oliveira Salazar, merece, com maior força de razão, que nos debrucemos sobre ela e lhe consagremos o nosso interesse. Fazê-lo é ajudar a valorização das gentes do Concelho do Carregal do Sal, tão carecido de homens esclarecidos, sãos de corpo e alma, capazes de arrancar do marasmo em que tem vivido para o dinamismo de uma vida ativa que valha realmente a pena ser vivida.

A inauguração a que hoje procedeu Sua Excelência o Ministro da Saúde e Assistência é, digamos assim, a consagração da obra que temos diante dos olhos e o reconhecimento da sua incalculável utilidade. Mas não vão pensar as gentes do nosso concelho que essa utilidade será imediatamente reconhecida por todos e que de um momento para o outro toda a população de menores recursos acorrerá à Fundação para fruir os benefícios que ela visa a dar-lhe. Infelizmente, tantas vezes, até e ele se encarregará de mostrar a todos o quanto é necessário, indispensável mesmo, uma obra destas na nossa terra e quanto será desejável, por este país fora, uma em cada freguesia.

Vestiu galas a nossa terra. Velhinha, venerável pelo seu passado remoto, apareceu hoje ataviada com arcos e festões, colgaduras, música, foguetes, dísticos congratulatórios de homenagem e tudo mais que os espíritos de uma população em festa puderam conceber e praticar.

Nem admira! Chegava Sua Ex.a o Ministro da Saúde e Assistência e para inaugurar a Fundação.

Eram 15 horas quando o Ministro, acompanhado da sua comitiva chegou ao limite do concelho onde era aguardado pelo Comendador José Nunes Martins, pelo Presidente Delegado da Fundação, Dr. Luís de Melo e por numerosa representação das forças vivas regionais. O cortejo automóvel que depois se formou integrava mais de 100 carros.
No Calvário, Sua Ex.a foi cumprimentado pelo Governador Civil de Viseu, pelo Presidente da Câmara do Carregal, pelo Presidente da Comissão Concelhia da União Nacional e por várias individualidades que ali o aguardavam.

A chegada a Oliveira do Conde foi apoteótica, pois ali se concentraram muitos milhares de pessoas, oliveiracondenses ou não, convidados ou simples curiosos, todos irmanados no mesmo desejo de homenagear o Ministro da Nação e o benemérito instituidor da obra a inaugurar.

A guarda de honra a Sua Ex.a foi feita por um grupo de filiados da Mocidade Portuguesa, alunos do Colégio Nun' Alvares, de Carregal do Sal. Colaboraram nos festejos, dando-lhe ainda mais vibração se possível, duas bandas de música.

O Ministro e sua comitiva acompanhados pelo Comendador Nunes Martins, pelo Presidente-Delegado e por várias outras individualidades percorreram depois a Fundação que muito apreciaram.
Estava feita a inauguração.

Seguiu-se a sessão solene. Falou em primeiro lugar o Presidente Delegado da Fundação para cumprimentar o Ministro e agradecer lhe a honra concedida àquele organismo de beneficência, a todos quantos a ele se sentiam ligados e a todo o concelho do Carregal do Sal.

Terminou abordando algumas considerações elogiosas à personalidade do benemérito, Comendador José Nunes Martins.
Falaram a seguir os Senhores: Dr. Santos Bessa, Governador Civil e o Dr. Henrique Martins de Carvalho, Ministro da Saúde e Assistência, que começou por tecer hino às belezas da região, à qual se sente ligado laços de família, aos seus emigrantes, que, construtores da grandeza de outros povos, mesmo irmãos como no caso do Brasil, não deixam ligações com a Pátria nem lhes falece o amor que a que esta ali é devido.

Agradeceu em seu nome e no do Governo que ali representava as benemerências do Comendador J. Nunes Martins e prometeu acompanhar e ajudar a vida da sua Fundação. Terminou por entregar àquele benemérito as insígnias da Ordem de Benemerência cujo grau lhe foi conferido pelo Governo em tempos e que os seus mais próximos colaboradores agora lhe ofertaram.

No final o Ministro foi muito aplaudido e muito cumprimentado tendo-se-lhe seguido no uso da palavra o Comendador Nunes Martins que, visivelmente emocionado, agradeceu as palavras amáveis que todos quiseram ter a bondade de lhe dirigir e prometeu que, tal como até aqui, nunca se esquecerá da sua Pátria nem da sua terra. Em todos os momentos este senhor esteve acompanhado por sua Esposa e Filhos.

Encerrada a sessão, na sede da S. E. R., deu-se início ao banquete, tendo sido oferecido em honra do Ministro. Sua Ex.a retirou-se às 19 horas, prosseguido o banquete com grande animação.

Falaram de novo o Sr. Dr. Luís de Melo, Armando Enes Baganha, Daniel Cruz, Dr. José Pais Ribeiro, Duarte Bárcia e Dr. Filomeno Lourenço de Sousa Leite.
Para terminar diremos algumas das figuras mais destacadas cuja presença nos foi possível conhecer:

Deputado Dr. Santos Bessa por si e representando o Diretor Geral da Assistência e o Dr. Bissaia Barreto; Diretor Geral de Urbanização de Viseu, Eng. Sá e Melo; Eng. Leal Loureiro por si e por Dr. Maças Fernandes; Arquiteto Nogueira Martins; Sub-Delegado de Saúde Dr. Manuel da Costa; Dr. António Pinto de Campos; Dr. Maximiano Ribeiro; Dr. José Ribeiro Pais, Diretor do Hospital Rovisco Pais; Dr. Emiliano da Silva, Presidente da Carnara de Nelas; Dr. Aristides de Aguiar; Dr. Joaquim Monteiro, Dr. António Jesus Correia, Dr. Renato Pantaleão, Luís de Lima Lobo, representando a Câmara de Viseu; Comandante da S. P. de Viseu; Dr. Delfim de Sousa Ramos,. P.e. Valdemiro Pereira Coelho, pároco da freguesia, P.e. Manuel Pais Messias, P.e. Amadeu da Silva Ferreira, Professores das Escolas Masculinas e Femininas da Freguesia, Presidentes das Juntas de Freguesia, etc., etc..

O serviço da ordem esteve a cargo de uma força da G. N. R. de Carregal do Sal, em uniforme de gala e uma Brigada de Polícia de Trânsito, de Lisboa, que conseguiram que todo o movimento se fizesse com a melhor ordem.

A terminar resta-me apresentar as minhas felicitações ao Comendador José Nunes Martins e aos seus colaboradores Dr. Luís de Melo, José Martins e Duarte Bárcia.”


A OBRA... UM POUCO DE HISTÓRIA – artigo do Sr. Dr. Luís de Melo:

"O programa inicial da obra manteve-se sempre, embora os projetos fossem dois. O primeiro foi alterado nos alçados e num ou outro pormenor da compartimentação, em ordem a uma melhor adequação ao meio ambiente e à sua mais económica conservação.
Da revisão a que o sujeitou o Sr. Arquiteto Carlos Ramos, digníssimo Diretor da Escola de Belas Artes do Porto, resultou aquele que agora que se conclui e foi solenemente inaugurado.

As obras de terraplanagem e regularização do terreno foram iniciadas em 1954 e em 28 de Maio de 1955 fez-se o lançamento da primeira pedra. O ritmo das obras não foi sempre igual. Embora a supervisão pertencesse ao atual Presidente-Delegado, as obras de início e por alguns meses foram dirigidas pelo Sr. António Martins.

O Sr. Comendador ao criar a Fundação dotou-a com mil contos. Mais tarde, aumentou com mais 250 contos a importância inicial.
Os estatutos atuais foram sempre considerados pelos responsáveis um ponto de partida e ainda assim básico. Resta adequá-los à obra e adaptá-los ao meio que pretende servir.
Aguardam-se sugestões e com um pouco de calma e tempo teremos os novos estatutos, cuja revisão já foi iniciada.
Aprovados por despacho de Novembro de 1951 estio muito aquém do que se deseja.
As despesas do edifício efetivamente realizadas estão aquém do orçamento base de comparticipação - 1400 contos em números redondos.
Resta o mobiliário ainda não totalmente entregue.

O do Centro Social polivalente foi entregue no prazo «record» de vinte dias!... Fiquei pasmado, quando às 13 horas do dia um os técnicos deram por terminados os trabalhos de instalação e distribuição.
Para todas as obras o Estado entregou pela Direção Geral da Assistência 75 mil escudos. A comissão das Construções Hospitalares e Serviços de Urbanização comparticipou com 40% do orçamento base.

A Fundação foi pensada para funcionar em pleno, mas progressivamente. E foi inaugurada agora, porque no dia 22 o Sr. Comendador vai embarcar, de regresso ao Brasil.
A sua presença impunha-se no ato inaugural, embora com sacrifício partindo do princípio de que a obra inaugurada é obra que deve entrar em pleno funcionamento.
Porém, não foi possível apetrechá-la totalmente. Resta ainda a questão do pessoal de serviço e administração, assunto melindroso, mas que urge resolver. Não satisfeitas as nossas aspirações, poderemos cair num plano que atraiçoe quanto já se fez e previu. Carecemos de almas que se dêem inteira e abnegadamente a esta obra de Caridade."


Em 1997 a Fundação corria o risco de fechar as portas definitivamente, ficando ao abandono uma infraestrutura, onde foram gastos largos milhares de contos.
Atualmente a Fundação José Nunes Martins é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, que tem como objetivo contribuir para a promoção da saúde e da solidariedade social, com carácter permanente ou temporário de pessoas com idade superior a 65 anos, de ambos os sexos, desinseridas do meio social e familiar, não autónomas na satisfação das suas necessidades básicas, impedindo permanecer no seu meio habitual de vida.

FONTE: Saraiva, J. (1997). Oliveira do Conde (Subsídios monográficos) (pp. 103-132). in Editor.
https://www.cm-carregal.pt/
Fotografias gentilmente cedidas por Paula Teles e Câmara Municipal de Carregal do Sal